VERNOZEMUS



Menino pobre, filho mais novo da tribo dos Kapiaus, cuja língua tribal era o caipirês, tribo esta que ficava num bairro chamado Coloninha, próximo ao Rio Jaguari.

Família de sete filhos, dois natimortos, sendo eu o mais novo da família, e nem por isso apanhava menos, mas era surrado até pelos irmãos mais velhos.

Gente humilde, cujos filhos, assim que recebessem o “diproma” primário, já tinha que trabalhar para ajudar no orçamento doméstico. Desta forma, as duas irmãs mais velhas, trabalhavam em serviços gerais nas residências dos mais abastados da cidade de São João da Boa Vista. Faziam limpeza, arrumação e ajudavam na cozinha, o que deu a elas a condição de excelentes cozinheiras.

Em seguida, na carreirinha de filhos, vinha o primeiro varão da família, o qual tinha certas regalias por ser o primeiro macho da família, e que sujeitava as suas irmãs, a fazer, após o trabalho diária na casa das patroas, aos trabalhos forçados, tipo, servir água para ele; era folgado o cara, e mimado pelos pais o que o levou a ser um “casca de ferida”. A quarta pessoa da família era uma menina, que ficava em casa tomando conta deste menino, o quinto da família.

Humildes, pobres, porém corretos e honestos. O fato de serem honestos, talvez faça Jus a frase de Ciro Pellicano: Foi meu pai quem me ensinou o valor da honestidade. Tudo o que eu não tenho devo a ele.” ; pobres mais felizes, pois a ignorância sobre as coisas boas da vida nem passava pela cabeça deles, muito menos em eventuais fantasias; aceitavam a pobreza com naturalidade.

De minha parte, o objeto desta escrita, era feliz, brincava o dia todo na rua deserta da coloninha com o Maurício neto da dona Lídia, e com a Glorinha, filha da Maria do João Feio; menina sapeca e que sabia das coisas; com ela aprendi as diferenças existentes entre meninas e meninos.

Aos Domingos era festa! Dia de macarronada da mama, com molho de tomate colhido no quintal e carne de segunda, o que já era um luxo.

Final de tarde, dirigíamo-nos à igreja evangélica da cidade, pois eramos “crentes”, porém, passando antes pela casa do pastor, o que para mim era uma alegria, pois veria a filha mais nova do pastor. Menina da pele muito branca. Quase transparente de tão branca, cabelos negros, amarrados por detrás da cabeça em um rabo-de-cavalo, e uma franja que lhe encobria quase toda a testa. Foi a minha primeira paixão de criança.

Dali seguíamos todos juntos, caminhando até a igreja, com as mães conversando sobre o dia a dia, as moças devaneando sobre a vida; as crianças, lógico, em algazarra, tendo de sofrer, literalmente, um puxão de orelhas, que quase descolava-as da cabeça. Mas a presença da filha do pastor me alucinava, e eu seguia a procissão olhando-a, medindo-a e admirando-a. Aos meus olhos era a mais linda da igreja, quiçá da cidade.

O tempo passou, e a segunda irmã começou a namorar um rapaz da capital, o que obrigou a família a se mudar para São Paulo, para o casamento da filha.

Final do ano de 1954, chegávamos de mudança. Poucos móveis e muitos trastes. Coube tudo num Ford de bigode, o que na época era um caminhão novo. Na cabine, o motorista, a genitora da família e eu no colo dela. O restante da família se ajeitou na carroceria do caminhão, no meio daquilo, que para nós, era a mudança. Fomos morar na Chácara da Dona Andreia – Freguesia do Ó.

Era tudo novo, inclusive o povo. Era outra língua a falada aqui.

Ano do Quarto Centenário e do Campeonato de futebol ganho pelo Corinthians, e a cidade estava em festa. Aviões Teco-teco voando e espalhando papéis metálicos em alusão ao aniversário da cidade, e nas ruas, festas pelo campeonato, o povo festejando usando a camisa do seu time, e eu a ver aquele distintivo bonito do time campeão, me levou a ser torcedor dele.

Chegou o Domingo. Colocamos a nossa melhor roupa, pois iríamos ver Deus, como falava a minha mãe.

Entardecer, caminhando para a igreja, e à distância de uns quatrocentos metros, ouvia-se a bandinha furiosa da igreja ensaiando para o que seria apresentado à noite, com o pessoal todo cantando. Eu iria, então, tomar conhecimento de como era a gente da cidade.

Tudo novo, igreja grande aos meus olhos, gente bem vestida, moças bonitas tais quais nunca havia visto.

Aí começou o meu dilema. A língua falada pelo povo era, no mínimo, estranha ao meu caipirês. Começou pela música tocada pela banda e cantada na igreja, pois possivelmente havia falecido alguém da comunidade, então a banda tocava e povo cantava e eu pouco entendia a letra da seguinte música.

Neste mundo a vera Igreja
Peregrina vai andar
Anelando que esteja
No seu verdadeiro lar

Vernozemus, vernozemus
Vernozemus na terra divinal
Vernozemus, vernozemus
Vernozemus junto ao rio sem igual”



Quem Era a Vera da Igreja? Quem era a peregrina? Eu precisava conhecer esta gente importante que até era motivo de canção!

O Vernozemus então era algo em línguas muito estranha e desconhecida. Até descobrir o que era mesóclise passaram-se alguns anos. Não poderia ser “Nos Veremos, do que Ver-nos-emos”?
Já crescido comecei me interessar por literatura. Com Dez anos já tinha lido “Romeu e Julieta” de Shakespeare, li um livro sem capa e sem título que achei na rua e atiçou a minha curiosidade, pois tratava-se dos Carbonários e li o livro todo.

Neste momento comecei a me interessar por poesias, e então analisava os hinos cantados, com suas palavras rebuscadas e cheias de mistérios, pensando como o menino kapiau de São João da Boa Vista, e como pessoas cantando, desconheciam o significado das letras.

As rolas Balseiras na mata

por entre a ramagem em flor

contentes pipilam a tarde…”


Duvido que quem estivessem cantando soubessem que balseiras é quem “esmaga uva com os pés no lagar, o que nesta poesia poderia ser que estivessem saltitantes nos galhos das videiras.

Segue a música:


No fragoso alcantil

nas escarpas da serra”


Aqui a coisa pega, pois “Fragoso, alcantil e escarpa da serra” é a mesma coisa, tríplice redundância.


Descobertas e mais descobertas viriam, pois o menino cresceu!

Onze anos de idades; algo acontecia, sonhos com as meninas à noite e devaneios durante os dias eram constantes, até que chegou o “grande dia”, e na escola primária, a professora Maria José teve suas qualidades observadas, analisadas e desejadas. Um calor descia da cabeça até o púbis, quando ela vinha fazer a correção dos cadernos e se debruçava sobre a minha carteira e eu sentia seu cheiro de mulher bonita, seu perfume e via seu colo até onde iniciava a parte do decote, que insinuava o inicio de seus seios, e, chegando em casa, discretamente, tal professora foi “homenageada”. O menino tinha se tornado um “homem” ao suer ver…..

São Paulo, 24/11/2020






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