A PRIMAVERA


Primavera de 1.969, talvez 1.970. Perde-se na memória, datas, eventos, amigos que se foram, etc, mas, um doce momento, a beleza, o belo jamais se apagará da lembrança.
A semana começou agitada e cheia de ansiedade, pois o final de semana prolongado que se aproximava, prometia, além de descanso, rever minha cidade natal, tios queridos e parentes caros.
Por fim chegou a quinta feira, dia em que viajaria à São João de Boa Vista, a “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”, slogan este que cabe a uma cidade cercada pela Serra da Mantiqueira, o que dava ao nascente e poente, uma pintura de cores em matizes mil. Algo lindo assim só poderia ter sido pintado pelo artista celestial, criador de tantas belezas.
Embarquei no ônibus da Viação Cometa, às sete horas da manhã, na antiga rodoviária, defronte a estação Júlio Prestes.
Dia ensolarado, viajem tranquila, porém tendo o desejo de logo chegar, e abraçar a querida tia Elvira, tio Pascoal, tia Maria, Tio Armando, e, se sobrasse tempo uma visita ao Tio Guido e família na vizinha Águas da Prata.
Mal o ônibus estacionou na rodoviária Sanjoanense, peguei meus pertences e subi em direção à catedral da cidade, admirando as árvores bem podadas em diversas formas, o chafariz da praça, que de noite, ao som de músicas românticas, jorrava suas águas dançantes e multicoloridas em direção ao negro céu noturno, causando suspiros apaixonados aos corações de vários pares de namorados. Nesta caminhada, passei pelo Teatro Municipal, um dos mais belos do interior paulista. Ah, o Clube Palmeiras de momentos maravilhosos vividos lá! A lanchonete Tékinfim, onde fazia meus lanches e tomava meu gin tônica, e ali ficava horas admirando os transeuntes conversando em seu sotaque caipirês.
Caminhava pelo caminho que conhecia em direção ao Perpétuo Socorro, pois a rua que minha tia morava ficava atrás desta igreja, mas eu fazia questão de passar antes no Largo do Palmeiras, para tomar um delicioso sorvete de macaúva, iguaria só existente nesta cidade, e na sorveteria daquela pracinha. Tudo, para mim, era belo nesta cidade. Dizem que “toda a beleza do mundo não se iguala em formosura aos batentes da porta do quarto em que nascemos”. Eu ali na sorveteria, admirando e pensando sobre a vida, e neste devaneio me veio a mente, quão abençoado eu deveria ser, pois nasci na Rua Santo Antônio, Bairro de São Benedito, cidade de São João da Boa Vista, estado de São Paulo. Surpreendi-me sorrindo com tal pensamento, e corei de vergonha ao ver que era observado por pessoas que tomavam sorvete ao meu lado. Claro que paguei a conta e sai rapidamente do local, pois poderia ser considerado um parvo.
Caminhei em direção à casa de minha tia, onde era costume me hospedar.
Apresentei-me à Tia Elvira e dei a ela um envelope que minha mãe lhe enviou. Possivelmente era um pagamento de minha estada, pois, tanto minha mãe, quanto tia Elvira eram analfabetas, e não podiam ler cartas, mas contar dinheiro? Ah, sabiam muito bem!
Após descansar alguns momentos e dar notícias de casa, enquanto Tia Elvira pitava seu cigarro de palha, com fumo-de-corda produzido pelo tio Pascoal, e, terminando a conversa, tomei a benção de minha tia, e fui então em direção à casa dos outros parentes, conversar com primos, e principalmente com as primas Luzia, Marcinha, Zezé, filhas do tio Armando. Estas, eram pessoas de minha amizade, bem como a Neusa, neta da tia Elvira, que era pessoa de gosto musical próximo ao meu.
Para terminar o dia, fui lanchar na única lanchonete da cidade, e então voltei para o descanso, fiz meu asseio e dormi gostosamente ao barulho de um colchão de palhas amaciados e afofados antes de deitar,
Sexta feira, ainda cedo, tipo seis da manhã, ao som de Tonico e Tinoco, na “Rádio Difusora de São João da Boa Vista, uma emissora da rede Piratininga de rádio difusão”, levantei-me e fui apreciar minha tia fazer o café da manhã no fogão a lenha, este, cimentado com uma mistura de vermelhão; um corante que dava cor ao cimento. O café fumegante lançava seu perfume no ar; café colhido na roça próxima à residência dos tios . Linguiças caseiras eram defumadas por cima do fogão, dando, ao que penso hoje, um toque refinado de uma comida saborosa, que degustaria na hora do almoço.
Tomado o café, sentei-me na área de serviço admirando o nascer do sol na Serra. Seus raios dourados pintavam as nuvens de cores com tons amarelos tendendo ao laranja, dando a impressão de que as nuvens eram feitas de algodão de ouro. O sol já percorrendo o firmamento, me fazia lembrar a poesia dos Salmos:

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol, O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho. A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.”

Salmo 19. 1-6


Com este pensamento, fui à frente da casa sentar-me na amurada da área, meditando na grandeza do sol e seu poder; nada poderia ofuscá-lo em sua majestade e grandeza. Mas, havia corrido a notícia de que um primo de São Paulo, estava ali por uns dias, e não mais que de repente, surge as filhas de duas primas, garotas formosas e lindas, e, estas conseguiam, pela suas belezas, não tirar a imponência do sol, mas concorrer em formosura ao astro rei.
Zildinha e Jairce eram os nomes destas primas, tão lindas que me veio à mente, algo que Shakespeare conseguiu colocar na peça Romeu e Julieta, colocando na voz do apaixonado Romeu, um elogio à sua amada Julieta:
- “ A sua beleza ensina o sol a brilhar!”

Todos encômios parecidos
a este ainda eram poucos às duas primas ali na minha frente, tão belas que, quem sabe seriam idênticas ou mais belas que as musas inspiradoras para artistas como Velazquez, ou Botticelli pintando outras musas, sendo que poderiam ser duas Vênus, estas, mais lindas ainda.
Passada a pasmaceira e a voz voltando-me, entabulei conversa com as duas perfeições em formato feminis, e, desinibindo-me conversamos, nos demos a conhecer, e quando elas iam se despedir, ousei convidá-las para um passeio na praça da cidade, logo ao entardecer, o que foi aceito com certa cautela, pois eu era meio que desconhecido delas.
No horário certo, surgem as duas, cuja peles aveludadas e lindas que estavam, aqueceram meu ser, e deram-me energia quase ao ponto de alumiar o caminho até a praça Joaquim José.
Onde jovens namorados passeavam felizes com seus pares.
Nada especial conversamos, pois quem passeia com pessoas de quem se gosta, todas e quaisquer palavras, por mais sem graças, ou até idiotas, se tornam motivos de alegrias e risos felizes.
Após o passeio, acompanhei-as de volta às suas respectivas casas, não sem antes marcar novo encontro no dia seguinte.
Noite insone e mal dormida aguardando as eternas horas passarem. O dia raiou e o desejo de que a tarde chegasse logo me angustiava e o nervosismo tomava conta de mim. Por fim, chegou a tarde, barbeei-me, tomei um bom banho, usei um bom perfume, coloquei a melhor roupa, pois tais seres célicos mereciam ser acompanhadas de alguém que teria de, pelo menos, estar bem apresentável.
Tia Elvira, desde a manhã a tudo observava sem dizer nada. A hora do encontro chegou e as primas não chegaram, fazendo-me caminhar nervosamente pela sala da casa. Uma hora se passou a angustia transparecia em meus atos, quando minha tia, olhando-me de “esgueio” , como dizem os caipiras, tirando o cigarro de palha da boca, dando um sorriso maroto fez uma pergunta e, em seguida, ela mesmo respondeu. Disse-me ela: -“Você está esperando a Zildinha? Ela não vem; a mãe dela não deixou! Em seguida ela saiu de perto para não me deixar constrangido, pois sem pernas eu já estava. Meu castelo ruiu! O príncipe, agora desencantado ficou sem castelo, perdeu a nobreza, perdeu a princesa, ficando só o fosso cheio de lágrimas que jorravam de seus olhos, mesmo sem choro.
Recuperei-me e sem dizer nada, fui ao Tékinfim , desta vez sem tomar o gin tônica costumeiro, mas sim duas doses duplas de uísque vagabundo, feito de álcool de cereais e milho, pois minha intenção era somente dopar a dor sentida.
Assim anestesiado dormi bem, e, Domingo cedo, despedindo-me sem graça de meus tios, fui à rodoviária, e embarquei no primeiro ônibus, para voltar à rotina Paulistana. O tempo que durava a viagem na época era de três horas e meia e deu tempo de “ruminar” o prato que iniciou doce como o mel, mas que se transformou em cálice de fel. Haveria um escape para tamanha desilusão? A melhor forma de apaziguar a frustração seria rabiscar algo num papel e então os rabiscos se transformaram em forma de versos, baseados na imagem célica que habitavam minha memória e dela não saía.

A PRIMAVERA

Ah; como estavas linda!
Linda como se, da cidade, fosse o crepúsculo
De incomparável beleza infinda
Que provocava o desejo de mil ósculos.

Ao meu lado caminhavas
Com tanta elegância, pureza e galhardia
Que imaginava que no éter flutuavas
Ah, e tua voz? Aos meus ouvidos, suave sinfonia.

Eras dos jardins e vérgeis campos, a mais bela flor
Concebida em momentos de doces encantos.
E, num devaneio almejava ser um beija-flor
Que após saciado dos beijos chilreava-lhe acalantos.

Mas, cruel foi o destino; rude foi meu fadário
Sem uma despedida tu te esvaistes nas brumas da noite
Ficando em meu peito a dor cruenta qual do calvário
Que incessante, em horas eternas doíam quais açoites.

O tempo passou, acostumei-me com a amargura
Mas a imagem tua jamais saiu dos meus pensamentos
Devaneava, quem sabe um dia, reencontrar tal ternura
Que me devolveria a felicidade do mesmo sentimento.


Retornei à vida corrida da capital, porém os momentos felizes de somente um dia, não me saíam da mente, Me surpreendia falando sozinho: - “Que linda; Que garota fenomenal!
Dizia comigo mesmo: - “ É tão linda, que se Deus tentasse colocar um grama a mais de beleza nela, não caberia; não grudaria e cairia o excesso de beleza ao chão”.
As horas recusavam-se a passar, dias intermináveis com o corpo em São Paulo e a alma em São João. Chegava a noite e não conseguia conciliar no sono, pois o pensamento ia longe, a imagem dela teimava em ficar ao meu lado, como se no meu leito estivesse deitada comigo. Devaneava doces momentos, imaginava coisas mil, mas… triste destino… quem sabe o tempo resolva?






O TEMPO

Nos meus doces anseios
Pairavas no éter bela; muito linda
Pois teu rosto nos meus devaneios
Era de formosura infinda.

A tua louçania me encantava
Teus lábios? Flor que te atavia!
O sorriso aberto teu rosto adornava,
E teus olhos? Estes lançavam magias!

Mas sonhos juvenis tendem a terríveis pesadelos
E minha alma recusava deles despertar
Pois sentia, mesmo em tua ausência, teus desvelos
O que fazia meu ser de paixão esbordar.

O tempo; ah o tempo deve ser a panaceia
Para todos os males, talvez até do coração
Esquecendo o ocorrido nesta odisseia
Vencendo assim, o sentimento de prostração.

Triste sentimento, e do coração ledo engano
Pois o tempo não tem o poder de apagar
Da alma a paixão, talvez um amor insano
Então, a realidade dorida volta a reinar.

Os dias, anos passaram, e acaba-se acostumando com a ausência; ausência esta sem, sequer, uma notícia; algo que desse esperança de um reencontro. As idas à cidade interiorana tornam-se amiúdes, na esperança de que o fado possa causar um encontro ocasional, ou, pelo menos, uma visão da pessoa encantadora.
O tempo corre inclemente sem notícias e, então vem a aceitação, e a vida segue. Cada qual com seu destino, ou, se mais drástico for, cada qual com sua sina (Se é que esta existe).
Namoros outros, aventuras, amores e decepções vieram, enfim uma vida corriqueira e normal, cada qual com sua vida, mas… o tempo volta a agir e o destino promoveu uma reaproximação. Quem diria que através de uma rede social haveria um encontro, mesmo que virtual e à distância?
O tempo não lhe foi inclemente, pois aos meus olhos continua a mesma pessoa encantadora e linda, afora a simpatia que sempre lhe foi peculiar.
Uma grande amizade salutar e respeitosa, porém com muito bem-querer permanecerá para sempre. É o que nos restou…


REENCONTRO

Lembranças…
...era tudo o que me restava
Pois teu rosto lindo e angélico
De minha mente não se afastava,
Imagem sublime; um ser célico.

Saudades…
...era tudo o que ardia em meu peito
Tua imagem docemente me acordava
Fazendo-me libar teu aspeito
Porém, tua ausência me toldava.

Negada…
nossa amizade; tua ausência senti
O destino usurpou, talvez um amor!
Quando faltaste ao encontro pressenti,
Que meu coração sofreria grande dor.

Voltaste…
o destino promoveu o encontro
E, feliz sou assaz galardoado.
Pois sua propinquidade neste recontro,
Tornou-me um abençoado.

Paulo Tomchaca
São Paulo, 19 de Maio de 2.020.



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